15/09/2008
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1) O BURRINHO PEDRÊS, Guimarães Rosa

2) A AVENTURA DE UM SOLDADO, Italo Calvino

3) OS EX-HOMENS, Maksim Górki

Espaço anexo ao "FUNDO DO POÇO" onde eventos e matérias especias serão esmiuçados, com o perdão do trocadilho, a fundo.





O colega moedotecário, Rodrigo, veio se queixar certa vez de uma pessoa (ou das pessoas, não sei) que pergunta (ou perguntam) por que um livro é bom. "É bom porque é bom." Afirmação que em primeira análise pode parecer estranha, superior - até mesmo arrogante. Mas refletindo sobre, pareceu-me bastante lúcida essa posição. Explico-me: é claro que há críticos e críticos, cabendo aos leitores selecioná-los, o que não pode haver são fórmulas para a crítica literária, como não deve-se exigir a formulação racional para tudo; quando não tem o que se explicar, abstenha-se de explicações. Vejam, por exemplo, Kafka.
O tcheco é um dos escritores mais celebrados mundo afora, e com razão. O pioneirismo de sua obra faz dele um visionário. O que falar, então, do material literário? Creio que nenhum dos moedotecários, para tomarmos um exemplo familiar, negariam-lhe cinco moedinhas numa hipotética resenha. Eu teria que acrescentar mais uma moeda, no mínimo. Portanto, as leituras críticas de Kafka, inúmeras, que se vão acumulando ao longo do século não poderiam ser mais divergentes entre si; e inconclusivas - reconheço que é um exemplo extremo.
O motivo da escolha de A preocupação de um pai de família, de Um Médico Rural, não é outra senão a impenetrabilidade. Toda a obra de Kafka possui em maior ou menor grau um mistério, mas este conto parece ter o drama do não entendimento como tema. Vejamos a descrição de Kafka, tradução de Modesto Carone (abre parêntese para uma homenagem ao tradutor), do insólito Odradek:
"À primeira vista ele tem o aspecto de um carretel de linha achatado e em forma de estrela, e com efeito parece também revestido de fios; de qualquer modo devem ser só pedaços de linha arrebentados, velhos, atados uns aos outros, além de emaranhados e de tipo e cor os mais diversos. Não é contudo apenas um carretel, pois do centro da estrela sai uma varetinha e nela se encaixa depois uma outra, em ângulo reto. Com a ajuda desta última vareta de um lado e de um dos raios da estrela do outro, o conjunto é capaz de permanecer em pé como se estivesse sobre duas pernas."
Talvez seja um problema meu, mas sinto uma enorme dificuldade em conceber tal objeto. Cada vez que leio sua descrição, paro, leio novamente, e é como se o visse pela primeira vez. Vem e se perde. É essa a minha relação com Kafka. Assim como o pai de família preocupa-se com a finalidade de OdradeK, enquanto este deverá sobreviver a ele, Kafka permanece indecifrado, ou desvendado por vários ângulos diferente e que se excluem - o que dá no mesmo -, enquanto há empenho em demasia para moldar-lhe uma face definitiva. Talvez seja atributo da literatura o quê de inexplicável, necessário o juízo intuitivo, e não devamos limitá-la a explicações. Desconfio; talvez.
3) REFRESCO DE MANGA, Luiz Pimentel
por Eder Fernandes
Infelizmente não encontramos nenhuma foto de Luiz Pimentel. A foto acima é de Emerson.
No prefácio de Doze Contos Peregrinos, Garcia Marquez confessa: “o esforço de escrever um conto curto é tão intenso como o de começar um romance”. Confissão tão óbvia serve como advertência àqueles que pensam o conto como um gênero menor. Acreditem vocês: são muitos os que pensam assim. E isto se acentua no caso do contista se voltar a acontecimentos de uma parcela da população cujas aspirações metafísicas sucumbem à ordem da sobrevivência. Piora se esta obra não for, ao menos, panfletária. Chamam-no de rasteiro, gratuito, covarde.
Em meio a esses equívocos, Luiz Pimentel faz sua literatura. Não me recordo de um conto seu que falasse de um tema profundo da condição humana; ou por outra, não me recordo de uma narrativa sua que não tenha falado de tais temas, no entanto com uma linguagem fresca, rápida, despretensiosa que costuma enganar os leitores graves, aqueles que têm vasto apreço pela alegoria e desprezam os fatos cotidianos.
O conto em questão, Refresco de Manga, ilustra bem o que eu estou querendo dizer. Em um resumo grosseiro, a história trata da visita de um jovem ao antro onde sua irmã mais velha trabalha. Um bordel. Ela virou prostituta depois que brigou com a mãe e saiu de casa. O tema central, como muitos possam achar, não é o resgate da honra da família, o jovem não vai a busca da irmã para arrancá-la de lá. Não. São as relações fraternais travadas entre o narrador-personagem e sua irmã (é aí que o título faz tanto sentido) e a inocência dele a despeito daquele universo repugnante que fazem do conto uma peça literária. O autor subverte o óbvio de forma cálida, abrandada.
Falemos a verdade. Luiz Pimentel não é um contista excepcional, já que para isso temos os nossos gênios. Contudo é um autor que, à sua maneira, vem fazendo uma literatura eficaz e ascendente. Não diria se tratar de alguém que precisa ser lido, mas também não diria que precisa ser ignorado. A sugestão está feita.
4) HARÉM, Elieser Cesar
por Rodrigo L.
Também não encontramos foto alguma de Elieser. Quem aparece aí encima é Dylan Thomas.
Nascido em Euclides da Cunha, no sertão baiano, Elieser Cesar tem seus quarenta e tantos anos e uma saudável cota de bom humor. Nos correntes dias, em que o artista baiano ou brasileiro exulta de uma seriedade e de um tom denunciador que - para quem está de fora - são só patéticos, Elieser escreve Harém. Não há, neste conto mínimo, de duas páginas apenas, uma grande lição a ser imposta ao leitor. O autor não pretende, com seu texto, radiografar a alma moribunda de sua terra - sem utilização meramente estética e vazia da violência, da apatia ou da miséria, Elieser promove um simples e bem humorado exercício estilístico.
Não se trata, contudo, de um conto perdido; não se desenvolve do nada para no nada findar-se. O sonho erótico do jovem estudante - que se imagina venturoso dono de um harém e de uma virilidade incansável - apresenta uma relativa quantidade de referências reais e palpáveis. Entre elas, a feminilidade reprimida da mulher afegã: "A excitada muçulmana balia um pequeno gemido de cabrita saciada". Elieser, ademais, encontra uma louvável forma de superar o delírio e recobrar a realidade: após as sombrias descrições das escravas sexuais tornando-se bruxas horrendas, consegue ainda assim preservar o riso do leitor.
Método semelhante pode ser encontrado em outros contos do autor (tais como Akizar, Tesoura de Ouro e o longo e belo O Trono do Desenganado) e, embora sua escrita, por vezes, debata-se diante dos mesmos problemas que, nos primeiros parágrafos, apontei como distantes de Harém (sobretudo nos contos A Garota do Outdoor e O Primeiro Carnaval de Luciano), a faceta mais descompromissada com uma suposta mensagem e mais preocupada com o trabalho estético faz Elieser sobressair-se na atual literatura baiana e brasileira como uma saudável exceção.
Só Deus sabe o quanto este filme me comove.
O vi, salvo engano, cinco ou seis vezes. Pouco ainda.
Tipo de filme que é muito bom para não constar em minha lista.
Um filme pedagógico. Bem ao estilo "para entender o cinema".
Assim como Raging Bull, sei algumas falas de cor. Assim como Raging Bull, o vi algumas dezenas de vezes. Obra inesgotável.
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Foram precisos 1968 anos da era cristã para se realizar esta obra. Provavelmente a criação de algo à altura só será pensável a partir do ano de 3936. Não estou reclamando.
Quando os sociólogos e antropólogos vierem lhe dizer que gênios não existem, você tem duas opções: ou você os faz escutar a 9ª de Beethoven, ou lhes mostra Rastros de Ódio, de John Ford.
Jô Soares, um cinqüentão, afirma ter assistido Cidadão Kane mais de 30 vezes. Sou bem mais jovem que Jô e só assisti a O Piano umas 13 vezes – pretendo chegar aos 100. A 1ª vez foi num longínquo trabalho de escola. A 2ª, vista numa fase menos apalermada, foi para alimentar a fome cinéfila. As outras 11 foram por causa de Holly Hunter. E as próximas 87 também serão.
4 - O HOMEM QUE COPIAVA (BRASIL)
O primeiro filme que eu admirei passionalmente de fato.
5 - A NOITE (La Notte, ITÁLIA)
Minha primeira grande experiência intelectualóide do audiovisual.
A cena inicial sintetiza muito do que vem depois e é a minha cena predileta do cinema; a lassidão, a fumaça do cigarro, o preto em branco. Muito mais que o argumento propriamente dito, o distinto em Condenação é a sua atmosfera, opressora, daninha. O filme atinge o ápice nas cenas mais misteriosas como o confronto do homem com o cão ou o sapateador solitário e inadequado. Não sei dizer exatamente porque o primeiro lugar, mas nunca titubeei.
2 - AMOR À FLOR DA PELE (Fa yeung nin wa, HONG KONG)
Lembro-me da cena na qual os cabelos da moça voam enquanto corre uma escada acima com uma tigela de macarrão. Lembro-me do vapor que as panelas que cozinham o macarrão libaram quando destampadas. Lembro-me da estampa do papel de parede da casa da moça. Lembro-me também do ambiente monótono do apartamento vizinho. Lembro-me de inúmeros detalhes, de inúmeras sensações. O que me escapa à memória não desabilita uma das mais intensas experiências cinematográficas que tive. Ao contrário: ressalta sua importância.
3 - GRITOS E SUSSURROS (Viskningar och Rop, SUÉCIA)
Algum filme de Bergman teria que entrar em meu TOP 5. De acordo com minha preferência pela concisão e pela poesia, Gritos e Sussurros é a escolha inevitável.
4 - KRAMER VS KRAMER(Kramer Vs Kramer, EUA)
Este filme não entraria nesta lista se eu não o tivesse re-assistido por acaso há poucos dias. As atuações são impressionantes (destaque para Dustin Hoffman e Meryl Streep) e toda a delicadeza com que aborda o tema faz-nos penetrar no mundo alheio. Poucos filmes conseguiram grau tão elevado de sinceridade. Mesmo consciente da sua singeleza, é difícil ficar aparte. Talvez esta mesma simplicidade seja uma das características principais.
5 - 2001: UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO (2001: A Space Odissey, EUA)
Todos que conhecem minhas preferências se espantarão com falta de Kurosawa ou de Lynch neste TOP 5. Assim como o envolvimento parcial com o quarto lugar foi preponderante, uma avaliação refletida não me deixa escolha quanto à quinta colocação. Impossível negligenciar a perfeição atingida por 2001.
Coppola faz da máfia uma arte. Há qualquer coisa de Grécia, de Roma nas intrigas e reviravoltas dos Corleone - momento raro em que me permito a apreciação do pendor para o Gigante em películas. Talvez a continuação, de fato, seja superior (por ser mais ampla) - mas está nesta primeira fita todo um impacto que jamais poderá se repetir.
Jules et Jim melhora a cada sessão que me imponho, mas, ainda que repetido infinitas vezes, jamais alcançará o nível de Os Incompreendidos - sei, apenas, que Doinel é o maior sofredor do cinema: ao fim da película, nem eu, que me compadeço de sua situação, consigo compreender o seu olhar perdido.
3 - TAXI DRIVER (Taxi Driver, EUA)
Um filme em que toda cena é pensada para ser clássica e, mais do que isso, perturbadora. A sordidez de NY e de Travis Bickler se encontram e travam duelos aos quais ninguém passa imune.
4 - A NOITE (La Notte, ITÁLIA)
O máximo de sobriedade na câmera. O máximo de inteligência e concisão nos diálogos. Como não bastasse, atua um trio do qual Antonioni consegue tirar também o máximo: Mastroianni, Moreau e Vitti encenam a mais contundente e elegante crise de relacionamento do cinema.
5 - OITO E MEIO (8 1/2, ITÁLIA)
Sobre a sua memória, Guido confronta, cheio de dor e ironia, a eterna e incontornável questão: até que ponto vida e obra convivem harmoniosamente? Fellini produz, com a maestria que lhe é típica, a mais bem acabada representação cinematográfica do artista - falhado, egocêntrico, vaidoso e compassivo, Guido sai das telas direto para as antologias.


Se Tolstói tem o seu A Morte de Ivan Ilitch e Tchekhov tem Enfermaria nº6, Aleksandr Púchkin é o autor de A Dama de Espadas, o conto-novela em questão. Para compreender a importância deste gênio russo, só mesmo comparando-o a um Poe, um Dante ou um Shakespeare; Púchkin foi o pai da literatura russa moderna, e, escrevendo romances, contos, poesia e poemas épicos, influenciou todas as gerações posteriores, dando origens a mestres como Tolstói, Turguêniev ou Maiakóvski. Fica até difícil decidir em qual área sua habilidade beira à perfeição: se na prosa ou no verso.
Segundo Boris Schnaiderman (um exímio tradutor, diga-se de passagem), A Dama de Espadas “lembra muito os contos de E.T.A. Hoffman”; com efeito, de acordo com as minhas leituras de apenas 3 contos do escritor alemão, devo concordar com essa afirmação: o tom sinistro só é desmembrado no meio do conto; mas, a partir daí, não o abandona mais. Os dois contistas, no entanto, se tornam discrepantes quando percebemos a textura cômica de Púchkin: neste conto não é difícil notar a pena ferina do autor, mesmo que aí contenha, ainda segundo Schnaiderman, “rasgos e inspirações para o tema central de Crime e Castigo”.
Ao ler Púchkin e Tchekhov traduzidos pela mesma pessoa, acabei lendo 3 livros. De fato, quem procura descobrir as influências de Púchkin em Tchekhov facilmente as encontrará; se a tradução poética já é quase intolerável, a tradução de prosa acaba gerando um sub-estilo oriundo de um “autor fantasma” que escreveu sobre o manuscrito original. A grande diferença entre os dois é a já conhecida maestria do segundo em levar ao ápice o poder de sugestão. Além disso, devo dizer que, geralmente, enquanto as implicações cômicas de Púchkin partem de idéias, as de Tchekhov, quando existem, provém dos fatos em si.
O enredo de A Dama de Espadas é o seguinte: um sujeito, após ouvir a história sobre uma senhora que sempre advinha as cartas no jogo, resolve ir atrás desta para ver se a afortunada lhe revela o segredo. Não direi mais nada: só pela primeira frase desse post já vale a leitura. O máximo que posso fazer é mais uma vez deixar registrada aqui a minha profunda admiração por Boris Schnaiderman, este honorável brasileiro.
Benedetto é o que está de braços cruzados.

s ő nyalni kezdi ezt az égi mézet..
A foto acima é do Maiakóvski. Não conseguimos encontrar nenhuma de Ildázio.


A priori, uma coletânea não poderia constar nesta lista. Mas tendo em conta o repertório coeso (temática, estilo, cor, etc), uma refinada disposição das faixas e os arranjos espantosamente combinando entre si, essa premissa é dispensada. Ainda não houve álbum que tenha tido tanta repercussão (e que persiste) em mim, multiplicando-se em ecos nas paredes internas de meus estômagos e da minha caixa craniana. Não há momento em que eu não o escute.
2 - Tropicália, Caetano Veloso
Caetano é uma constante em meus assuntos e em minha leituras de mundo. Escuto Caetano desde criança e desde então adquiri o hábito (ou o hábito me adquiriu) de renovar o olhar sobre sua obra, fazer relarem-se outras facetas. Tropicália representa minha mais recente e feliz descoberta.
3 - Gil Luminoso, Gilberto Gil
A simples rúbrica de Gilberto Gil é motivo mais que suficiente para esse álbum estar nesta lista. Gil Luminoso é especial dentre tantos outros álbuns de Gil porque traz o foco dos arranjos e interpretações para as canções. Canções delicadas, contemplativas e com o vigor das obras impecáveis.
4 - Let it Be Naked, The Beatles
A minha descoberta dos Beatles (um marco e uma alegria pra mim) se deu por esse álbum. Mas dentre tantos outros mais bem acabados, se os próprios Beatles não ostentam especial orgulho pelo Let it Be, pra mim ele revela sem maquiagens e esplendidamente aquilo que mais sei gostar na música: boas canções.
5 - Acabou Chorare, Novos Baianos
Por ter conquistado minha confiança aos poucos, por representar uma cultura nacional e baiana e me dar algum modo de identificação com o lugar em que vivo. Enfim, porque eu gosto de Novos Baianos.
Se João Gilberto é, para mim, o melhor intérprete que o planeta Terra já concebeu, e se a própria música Chega de Saudade é a minha predileta dentre todas já compostas, logo não seria surpresa nenhuma o disco encabeçar essa lista tão difícil.
2 - Abbey Road, The Beatles
Os melhores de todos os tempos fizeram em seu disco de despedida o que mais sabem fazer: emocionar gerações e gerações.
3 - Coisas, Moacir Santos
Fiquei horas indeciso entre três discos de jazz: Kind of Blue, do Miles; My Favorite Things, do Coltrane; ou Coisas, do Moacir. Escolhi Moacir por um simples motivo: não sei.
4 - Blood on the Tracks, Bob Dylan
O disco mais amargo da música popular. Sendo eu um sujeito amargurado, acho que combinamos muitíssimo bem.
5 - Gil Luminoso, Gilberto Gil
Só uma queixa: a falta de Se Eu Quiser Falar Com Deus no repertório. No mais, irretocável. Um registro sonoro, um documento de uma época boa para mim.
O mais próximo do divino que um homem pode chegar através de um instrumento de sopro.
2 - Bringing it all backhome, Bob Dylan
Como letrista, Dylan jamais voltaria a alcançar o nível de Gates Of Eden ou It's AlRight, Ma. Num momento decisivo de sua carreira, encontrou a melhor maneira de dizer adeus ao folk tradicional (It's All Over Now, Baby Blue) e a mais pungente forma de adentrar o mundo da música elétrica - como que acompanhado duma cavalaria bêbada, grava Subterranean Homesick Blues, Maggie's Farm e outros tantos clássicos do blues.
3 - A Tábua de Esmeralda, Jorge Ben
Trata-se, basicamente, da maior invenção de um cidadão brasileiro. Desde que o escutei pela primeira vez, persisto, sem sucesso, numa busca ingrata por um disco que junte, ao menos num nível parecido, tanta harmonia, balanço e melodia (e que se utilize de cordas tão atrozes). Com tudo na medida certa, Jorge Ben saiu gravando Os Alquimistas Estão Chegando, Zumbi, Menina Mulher da Pele Preta, Brother, a absurda Hermes Trimegisto E Sua Celeste Tábua e mais - uma sequência de doze faixas que talvez só tenha sido perseguida de perto por um Tim Maia convertido.
4 - Cartas Catingueiras, Elomar
Conheço gente que tem orgulho de ser nordestino. Por mais que soe estranha a idéia de se orgulhar por algo absolutamente fortuito, pelo que não se possui mérito algum, é muito provável que uma audição de Cartas Catingueiras traga certa vaidade a tais pessoas. A mim, porém, esta pequena obra-prima da canção sertaneja só me lembra que ser nordestino é uma condenação - por mais citadinos que nos tornemos com o correr dos anos, há sempre a nostalgia do mato, do lampião e da viola. Espero o dia em que alguém a cavalo, nomeado Donairoso Profeta do Óbvio, chegará à praça e afirmará que o homem responsável pela "Incelença Para um Poeta Morto" é o maior compositor brasileiro vivo.
5 - Cartola (1974), Cartola
O mais sublime e melancólico samba já feito. Dentro de uma tradição repleta de grandes letristas (Noel Rosa e Nelson Cavaquinho - só para citar meus preferidos) e de grandes musicistas (outra vez Noel, Paulinho, Adoniran, etc.) Cartola consegue se sobressair como o maior: o sentimento que percorre Disfarça e Chora, Sim e, sobretudo, Acontece (que considero, ao lado de Detalhes, a mais bela canção já escrita em língua portuguesa) é qualquer coisa universal, milenar - reconhecível em qualquer canto do globo e em qualquer época, Cartola é o mais local e universal dos músicos brasileiros. Uma contundente resposta a quem alardeia a alegria tupiniquim como uma entidade natural, imutável e imbatível.
Ainda bem que Cohen não nasceu nos EUA, já que na condição de canadense ele é o maior cantor/compositor de seu país – e que Neil Young vá às favas. Sendo assim, não fica à sombra de Bob Dylan, estadunidense. Leonard Cohen é, para mim, o exemplo máximo de integridade e condensação numa letra de música nos aspectos sonoro, semântico, lingüístico e espiritual. Quanto às canções, donas de melodias irrepreensíveis. No tocante à voz, comparável à de Deus, se esse existir.
2 - A banda do Zé Pretinho, Jorge Ben
A música, indiscutivelmente a mais sensorial das artes, desperta, sim, reações fisiológicas. E Jorge Ben é a prova maior disso – você sente na medula. Só Amante Amado, uma das faixas, já valeria uns 5 álbuns (e ainda bem que Jorge Ben tem dezenas de álbuns, porque excluir cinco deles não é fácil). Se algum brasileiro extraiu mais da palavra portuguesa que Jorge Ben Jor, ele não existe nesta dimensão.
3 - Trilhos Urbanos, Caetano Veloso
Assim como na Inglaterra e nos EUA todo e qualquer amante da música era obrigado por lei (não é mentira) a indicar um beatle favorito (o meu é Paul), aqui no Brasil nos sentimos no direito e no dever de escolher um álbum favorito de Caetano Veloso. Eu achava que seria impossível pôr algum disco à frente do Tropicália (ainda mais com Clarice e Onde Andarás), mas a união de composições como Terra, O Homem Velho, Odara e outros, além da faixa-título, me fizeram mudar de idéia. Talvez por ser focado bastante apenas em voz e violão, o álbum goza de prestígio imerecido (um prestígio baixíssimo, note-se).
4 - The Velvet Underground and Nico, The Velvet Underground
A morte mais insólita do rock é a de Nico: andava de bicicleta, tomou uma queda e morreu. A carreira musical mais insólita do rock é a de Lou Reed: composições geniais na banda, mas na extensa carreira solo apenas um CD que preste (o Transformer). As vozes dos cantores são insólitas; os riffs são insólitos; as letras também; e as linhas de baixo; e a capa do disco; tudo – e um álbum perfeitamente perfeito.
5 - Mingus Ah Um, Charles Mingus
Sempre considerei Mingus Ah Um meu CD predileto de jazz, embora por muito pouco (ganhando milimetricamente de algum de Miles Davis ou Coltrane). Mas me enganei: ouvindo novamente, cheguei à conclusão de que se me obrigassem, para ser bem trágico, a sacrificar metade da obra de Davis em prol deste Ah Um, eu não hesitaria nem um pouco.